Picasso, Neruda, Bomfim
Pablo
Renascer
Diferentes visões destorcidas desembaralham-se bem diantes dos meus olhos...
"Há uma relação entre a formação e a informação. Rigorosamente, nós só sabemos o que sabemos após recebermos alguns dados, algumas notícias que têm caráter informativo. (...) A formação depende da informação como o conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível, embora não consista nele. (...) É claro que a cada dia precisamos de informações que nos ajudem a progredir em nossa formação. O mal da época, mal derivado da atmosfera nominalista e de informações, é que deixa no esquecimento o gosto e o desejo da sabedoria."
Os habitantes de nossa sociedade estão sem identidade e sem opinião, pois não lhes foi ensinado, respectivamente, a tê-las e a formá-las. Devido à recente ditadura da comunicação e outros aléns, culturalmente enfurnados em nossas formações social, política, psíquica e fisica, roubando a ordem natural das coisas e diminuindo as possibilidades criadoras.
Sabe-se que falta muita coisa para que melhore a condição de formação social dos seres humanos. Falta arte, falta música, tinta, palavras, brincadeiras, esportes, liberdade, amizade, poesia, afeto, interação, amor, união. Falta, acima de tudo, comunicação. As colocações e diálogos vêm sempre acompanhados por um pessimismo velado ou simplesmente por um complexo de sátiras, intrigas e ironias, que de nada exaltam qualidades, contudo sempre defeitos e pequeninices atrelados às abóboras que por vezes pensamos, por outras explicitamos.
"Pequenas coisas só atormentam pequenas mentes..."
Essa visão pessimista, essa auto percepção desfavorável da sociedade, acontece sem que se dê conta, pois vem impregnada no inconsciente coletivo, perpassando gerações. O homem reage segundo valores formados em sua personalidade ao decorrer de seu aprendizado de vida. Esses valores refletem formas que lhe foram ensinadas e moldadas.
Não se deve atribuir culpa às pessoas que cometem erros, seja lá em que grau for que os tenham cometido. Todos temos problemas. Fomos formados ou deformados, informados ou alienados assim, desde a infância. Alguns não passam de meros joguetes da sorte, para os quais não tem ninguém nem aí. Qualquer pessoa dita mal-amada, ranzinza, chata, solitária, fofoqueira, maluca, mentirosa, falsa, ou ainda, qualquer dita criminosa, corrupta, traficante e mesmo assassina, todas essas pessoas estão perturbadas de alguma forma. Cada uma, a sua maneira, foi mal formada pela sociedade onde nasceu, cresceu e formou seus próprios valores.
Na verdade, não mais deve-se atribuir culpa e sim sugerir transformações e opções sensatas a serem analisadas, discutidas e tomadas, para que se consiga realizar algo. Essas pessoas não têm consciência do que fazem. São monstros que só aparecem quando surtam e fazem algo de bárbaro e sensacional. Míseros coitados.
Que se aceite diferenças e procure aprender, com o próximo, a trocar conhecimentos, a exaltar qualidades e sugerir melhorias aos defeitos certos. Ninguém melhora do nada, só ou isoladamente, contudo bem acompanhado e amparado. Através de uma comunicação cada vez mais perspicaz e com melhores ferramentas para sua difusão, objetiva-se propor essa troca de idéias entre as pessoas, visando a transformação de forma consciente, objetiva e clara.
Voltando-se um pouco para nossa história e para o fato de acreditar-se que o Brasil tem 500 anos, dos quais 300, destes anos, passamos sem imprensa e 389 funestos anos de escravidão, observa-se um Brasil escravocrata, excludente e pouco atuante no que diz respeito às formações cultural, artística e educacional, que, desde a catequizante colonização, perpassando negreiros navios e tilintantes senzalas, vem resistindo em meio a ditaduras e repressões, crimes e corrupções. Essa consequente crise social encontra sua causa na falta de cuidado com a formação do ser humano em sociedade, principalmente por parte governamental.
Cabe à Comunicação Social mostrar um novo mundo ao mundo. Aos formadores e educadores cabe a tarefa de levar aos alunos diversificados tipos de formação, que não meramente a teórica, por vezes hipócrita, aliando conhecimento humano à prática de artes e esportes, despertando raciocínio e interação, formando, de fato, opinião.
Se é do homem a inteligência, se este reage, em boa parte, segundo o seu inconsciente e se, hoje, temos um maior campo de possibilidades para a criação de uma nova comunicação, um novo conceito de vida, uma nova visão da sociedade, com o passar dos tempos, ficará comprovado que basta ensinar as crianças a arte de se bem-viver, formando e informando com afeto, amor e bons exemplos, teóricos e práticos, que, na colheita da próxima geração, a sociedade se abastará de seus saborosos frutos da era.
"Não tenta capturar borboletas,
apenas cuida do teu jardim.
Num belo dia de sol,
quando você menos esperar,
elas virão até você."
Me perguntam se esse espaço é destinado somente para poesias, ao que, prontamente, respondo que sim e complemento dizendo que é destinado, sim, para todos os tipos de poesia. Afinal, a poesia está em todo o lugar, basta bem observar. Observe. Tudo tem ou pode ter poesia. Tudo é poesia. A poesia está nas pessoas, nas crianças, nas palavras, nos gritos, nas cores, sabores, nas literaturas, músicas, artes, seja lá que arte for, e se, por qualquer acaso, houver alguma arte em que a poesia não esteja se manifestando, esta merece devido cuidado e reparo urgentes.
Sejam bem vindos. Participem. Interajam. Poetizem-se!

Galera do Nação . Foto: Betta Marques
Mais
"Mais, foi a primeira palavra que eu me repeti intensamente em minha infância: 'maise, mamãe, maise...'
Fosse guaraná, fosse coca-cola; fosse coca, fosse cola; fosse amor ou desamor ou qualquer outra espécie de dor.
Eu quero é mais ser imortal!! Quero ser o meu futuro ancestral.
Quero mais tabacaria, mais pessoa, mais maria, mais vinho, mais poesia..."
Angela Ro Ro
O Rio
Nunca paro para descansar.
Em meu seio habitam vidas.
De meu meio dependem ilhas.
Sigo sem rumo e cabisbaixo o meu rumo,
Percorrendo oportunas vias.
Largo, estreito, esquerdo, direito.
Sou de lua, de momento,
Sou de barro, de Janeiro.
Minhas águas, de março!
Ao céu, me divido, inundo, encharco, esbarro, perco, encho, acho.
Transbordo, escorro, gotejo, pingo, evaporo, deserto, minguo, seco.
Viro pântano, mangue, lama, alagadiço, brejo.
Mesmo assim, fluo, sempre, caudaloso e sereno,
Abrindo caminhos sempre libertos,
Ora rasos, ora fundos.
Às vezes bóio, afundo.
Mato minha sede com lágrimas.
Afogo saudades em meu leito.
Pedras brotam em meu caminho e apesar de tanto bater,
Não consigo furá-las, em cheio, no peito.
Ando à procura de minha terceira margem, por entre clareiras,
Enquanto galhos encalham às beiras.
Precipito, agito, corro, corredeiras.
Rio acima, Rio abaixo, grutas, cascatas, nascentes, cachoeiras.
Rodamoinhos profundos, fervimentos, marés, correntes, turbilhões.
Trombas d’água, aguaceiros, enxurradas, tempestades,
Tormentas, torrentes, arrastões.
Lendas, tesouros, ventos, raios, relâmpagos e trovões:
Num fluxo indissolúvel, quero, logo, desaguar no mar!
O Rei
Como pode um Rei andar cabisbaixo, triste, ao léu, à toa?
Sem rainha, sem castelo, sem corte, sem circo, sem coroa?
Onde está meu trono? Meu cajado?? Meu manto???
Meus navios, ferozes couraçados de robustos cascos,
Colidiram suas duras proas aos penhascos.
Minha tripulação está por um fio.
Meu exército, cambaleado, fraquejou na frente de batalha.
É como navalha que num dos gumes meu peito rasga e, noutro,
O leito de meu rio, de janeiro, talha.
Estou vulnerável.
Sem torre ou cavalos, escudos ou muralha.
Indefeso a ataques bárbaros e tecendo, com lágrimas de sangue,
Minha entrelaçada mortalha.
Todavia não para breve!!
Hei de voltar com toda a minha força,
E que para a forca o vento leve,
Se por acaso ou ironia,
Minha vida não quiser me pagar o reino que há tanto me deve.
Afinal de contas eu também sou Rei!!
Todos somos, cada um com o seu reino.
Respeite para ser respeitado.
Raios!!
E agora?
O que fazer??
Para onde ir???
Sei que preciso reunir minhas forças interiores,
Para, de cabeça erguida,
Reaver o que,
por direito,
é meu.
Recuperar o meu reino.
Enfim,
Que Rei sou eu?
Rei Nato TouzPin I
Boa Sorte
É só isso 
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará
Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz
Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais
Mesmo, se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha
Há um desencontro
Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais
Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz
Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais
Vanessa da Mata
Às Avessas
Procuro em todo canto algo no tom certo para por no papel.
A inspiração está desaparecida.
Nos tempos de hoje, Ela não mais dá as caras com tanta facilidade.
Poucas coisas, à deriva, do todo produzido pelo homem, Dela derivam.
Todos os que escrevem, escrevemos desprovidos dela,
por uns remotos tempos presentes.
Ela se foi.
Foi-se.
Foice...
Hoje, é preciso obter de tudo, a qualquer preço.
Terceiriza-se até a pobre, coitada e desnutrida inspiração.
Assim e aos poucos sopros, ela se esvai, vai-se.
As poesias apenas têm palavras grafadas noutra ordem.
Nada querem dizer. Nada dizem.
Aliás, tudo querem dizer, contudo, tudo ao mesmo tempo,
Distingue-se nada e subentende-se que nada têm a dizer.
Não é culpa dos escritores.
A culpa é do estado atual do comportamento humano,
que não conseguindo viver a paz,
num pequeno planeta desses como a Terra, acabam por corroê-la, gelando a espinha e apertando o nó no pescoço da infeliz Inspiração.
Os sensacionalismos mais bárbaros, os preconceitos e a falta de liberdade, gritam juntos, por aí, em nossa mídia, espantando a inspiração dos observadores que, além da mera observação,
não conseguem impedir-se de escrever algo a respeito do que vêem, seja lá com que gênero for,
mesmo que algumas tortas e ébrias palavras de afeto ou desafeto.
Precisamos fazer alguma coisa! Criar algo. Afetar-se.
Procura-se a tão pouco aclamada inspiração.
Como recompensa, o sorriso e a emoção.
Nada de mais interessante, esses dois aí, têm a dizer mesmo.
Então que, ao menos, sirvam de mercadoria escambótica.
Causa revolta, causam revoltas.
Venha, me dê a sua mão, Querida.
Eu não consigo mais terminar nada do que faço.
Sempre deixo por fazer, pela metade ou para trás.
Não concluo nada.
Não fecho ciclos. Não construo ninhos.
Não desempenho minhas atividades físicas, profissionais e espirituais.
O despertador, quase sempre, nunca funciona.
Chego atrasado em meus compromissos.
Estou triste e caduco sem você.
Preciso te reencontrar.
Encontrar-me.
Cadê você, Inspiração?
Venha me abraçar.
Quero você.
Quero cantar.
Quero mais.
Quero ler, ser lido.
Gravar um curta.
Projetar um longa.
Ter um livro, escrever um filho.
Venha, eu te espero.
Como colírio aos meus olhos,
Você fará novo e nitidamente o meu enxergar.
Venha, nem que seja nos meus sonhos, me beijar.
Sinto saudades.
Quero você por perto. 
Ainda é cedo, amor.
Quero tudo.
Quero tudo dizer.
Tenho tudo a dizer.
Todavia, não digo nada.
Algo está faltando.
Estou órfão.
Parece que só expiro.
Suspiro.
Fico mudo.
Às avessas.
Fio
Às vezes,
Na vida,
Quase sempre nos perdemos em meio a dúvidas e pensamentos obscuros e, em neles mesmos, nos achamos.
Damos voltas no momento, pelo nada caminhamos.
Algo perdido dentro de nós, por toda parte, procuramos.
- Por acaso, você viu meu olhar por aí?!?
De repente perdido no olhar de alguma menina.
Jogado na sarjeta, tonto na esquina.
Soterrado no aterro, afogado na piscina.
Sei que neste primeiro instante, primeiro preciso me encontrar.
Por aí me achar.
Buscar sobre a terra o meu lugar ao Sol, ao Luar.
Alternando “estrelas” na noite, pulando de bar-em-bar.
Arrepio.
Rastro.
Sinto frio.
Embebedo de saudades minha alma.
Meu desespero entra no cio, perco a minha calma.
E como Carioca, morador do Rio, me pergunto como deve ser,à fundo, essa tão falada e aclamada maravilha.
Danço com o Cristo, cantarolo às tristes trilhas.
Sufoco aos novos ares, pelejo a minha sina.
Mas é certo que quem procura acha!
E balançando o meu corpo gingado pelas ladeiras e quebradas, carrego essa enorme e descolorida faixa, que trás entre aspas em Caps Lock e em negrito, um anúncio em que vem escrito:
- “Você viu o meu olhar por aí???”
Enloucrescer
A sociedade está infestada por preconceitos.
Sátiras, ironias, humilhações.
Coitadas pessoas à mercê de pragas disseminadas e contaminações.
Coitadas são, pois não têm a menor culpa nisso.
O inconsciente dita as ações, desde o início.
São meros joguetes da sorte.
Eles mordem e assopram uns aos outros, sorrindo,
Enquanto secam os decotes das esposas de seus amigos do peito.
Elas, falam mal dos maridos, fofocam, arrumam quaisquer defeitos.
Drogas, diferentes tipos de sexo e muito roque e rua,
Apresentam suas celebridades.
Personalidades horripilam-se, destacam-se.
Destoantes, em moinhos, embaralham-se.
Intérpretes, comediantes, palhaços,
Todo estereótipo surge, egocêntricos, no picadeiro.
A platéia delira.
Todo tipo de asneira se vê nessa hora, ora diz-se, ora escuta-se.
A intenção é azucrinar alguém, enquanto outros se riem,
Escancarando os dentes sem saberem bem ou mal o por quê.
Quase sempre não há graça real.
Ri-se dá desgraça.
Isso é um cruel sintoma do inconsciente coletivo.
Que leiam e estudem,
Aprendendo a corrigir propícias falhas próprias,
Derivadas do Inconsciente social dos últimos tempos,
Que de sempre se ridiculariza.
Melhorem.
Percebam.
Que plantem e colham fantasias.
Sorriam felizes de verdade.
Ganhem e dêem alegria, vivam-na.
Aceitem as diferenças e não idealizem-nas.
Não liguem-se apenas ao corpóreo, conscientizem-se.
Enxerguem as distintas matizes existentes e bem observem-nas a fundo.
Senão, ao menos, tenham cuidado ao tentarem alterá-las.
Respeitem-nas para que obtenha delas respeito.
Cada uma tem o seu tempo de aprendizado, de transformação.
Não se deve julgar ou criticar, mas observar e sugerir.
Realizem. 
Aprendam.
Ensinem.
Evoluam.
Enloucresçam.
Procura-se
Em alguma esquina ou viela, na contramão,
Rio acima, à espera, à espreita,
Num canto, num beco, à margem, à beira,
Introspecto, encontro-me, de certa maneira,
Limpando de meu cérebro o mofo, a poeira,
Sacundindo meus ossos e
Redesvirando de cabeça-pra-baixo minha avessa cabeça,
À procura de minha paz.
Está por aqui, tem de estar.
Camuflada, escondida, sob destroços, dolorida, achada, perdida,
No meio do nada e mesmo que, de tudo um pouco, ferida,
Ela, contudo, por aqui deva estar, n’algum lugar.
Soube que ela queria se entregar, desistir.
Pular, sumir, fugir, se jogar, se partir, voar, ir.
Procurei, mas não a vi.
Se, por acaso, nela esbarrei,
Nem sequer senti.
Cadê você?
Está escuro.
Não lhe vejo.
Vem, segure firme a minha mão, amiga!
Você é minha.
Não vê isso não? Se liga!
Venha, vamos. Corra, querida!
Em minha vida quero, intensamente, usufruí-la.
Dar-te-hei flores, girassóis, um mar-de-rosas, margaridas.
O sol, o mar, oceanos, ilhas.
Às horas quero improvisar.
Nada de repetição.
Nada de dublê.
Quero ao vivo e à cores,
Numa fração do já,
Gozar o real prazer.
Experimentar paixões colhidas, na hora, do pé.
Sol brotando, passarinhos cantando, roça, mato,
Cheirinho fresco de café.
Observar, em contraponto e contrariado, que a moeda tem dois lados.
Sentir, na pele, os espasmos ao embeber absinto e ópio, mesclados,
Oferecidos com gosto e na bandeja, por sarcásticos.
Todavia, mesmo assim,
Nas frestas, na lama, na sargeta,
Continuar buscando. 
Noutra casa, cidade ou planeta.
Em algum lugar creio que esteja.
Anseio acasalar com você,
Doce e almejada emoção.
Meu peito lhe pertence.
Meu cérebro,
hoje,
sobrevive em sua função.
Oh, paz!
Apaixonar-se
Doçura nos sabores.
Mistura de essências nos odores.
Sol, sombra, opacidade, cores.
Dos olhos do furacão brotam flores encimeiras.
Dos fartos pedúnculos, amores, fogueiras.
Tímidas, suas meninas fitam.
Nervosas, as minhas se agitam.
Meus poros por ela chamam, gritam.
Minhas palavras à boca ulceram, precipitam, as dela imitam.
Não sou mais dono de mim.
Não tenho mais vontades próprias.
Fui tomado de assalto.
Engraçado que deixo que seja assim.
Ao vento conto histórias.
Jogo versos para o alto. 
Minha alma arrepiou.
Minha rima metrificou.
Meus pelos se eriçaram.
Meu coração se flechou.
Meu tempo parou.
Meus sentimentos se aclarearam.
Voltei a sentir saudades.
Escuto a voz do meu amor.
Encontrei minha outra metade.
O meu Eu se apaixonou.
Mais!!
A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos. A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro. A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos. Tudo bem! O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos e acreditar mais ou menos... Senão, a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.
Chico Xavier
Sonho
Flertei com a Deusa do Amor.
Na cama de nuvens, de Vênus, me deitei.
Com seu aroma,
Fragrância emanada dos poros, flutuei.
Com o sabor,
Combinação única de desejos, insaciável me lambuzei.
Com sua pele junto a minha, ingenuamente, arrepiei.
Jamais havia visto tantas belezas juntas numa mesma mulher,
Em toda a face da terra.
Será Sonho?
Verdade??
Ou Meia-Noite-Cinderela???
Vislumbre de um universitário desempregado
Um tempo em que se seja realmente feliz.
Crianças brincando, amigos do peito, verdades, reciprocidades.
Um tempo em que homens respeitassem e procurassem ajudar uns aos outros, para, assim, terem por quem ser ajudados e respeitados.
Em que sentimentos gerados e ligados à má formação social imposta por falhas estruturais governamentais, se escafedessem. Onde professores, formadores e orientadores tivessem o devido e assistido cuidado com os seus alunos, seus homens, procurando conhecer a cor dos olhos de cada um – formar não é castrar, dar bronca, expulsar de sala, excluir. Formar é, sim, interagir, comunicar-se, conversar, expressar-se, ouvir e ser ouvido, ser, mudar-se, transformar-se. Formar é, antes de tudo, ensinar e aprender. É, sobretudo, ensinar a aprender.
Diálogos há de existir a essa época, é a que almejo.
Época em que chefes tratassem com dignidade os seus empregados, obtendo, assim, mais ritmo, confiança e empenho por parte deles.
Na qual existirá uma capaz mídia, que tratará a informação com mais cuidado, sem ficar abusando da falta de coerência com a realidade, em sensacionalistas e fétidas matérias cruas que estampam, hoje, capas e páginas dos principais veículos de comunicação impressa e virtual, pronunciando-se repetidamente, por semanais décadas, pelas carrancudas bocas dubladas de engravatados teleapresentadores, caixas pretas mundo vasto à fora. Vasto mundo alienado.
Há de chegar o momento em que a mínima assistência será prestada e discutir-se-á políticas públicas com seriedade, verdade e envolvimento pelos meios de comunicação, refletindo, a partir daí, repercussões em toda a sociedade à qual essa comunicação procurar incutir inteligência. A comunicação, numa sociedade, é fundamental, sua falha, abismal.
Tempos que voltarão a ser áureos se aproximam.
Hoje, ainda vê-se como poesia, delírio, ficção ou fantasia, todavia, sinto aproximar.
Sou, então, um poeta delirante, um fictício ser fantástico, um mero personagem querendo isso praticar.
Que não quer morrer sem ao menos tentar algo mudar.
Se a transformação e a inteligência são do ser humano, como se sabe, logo, o que falta é usarmos essa inteligência de forma correta a transformar a realidade, a colori-la.
Fazer isso virar manchete.
Primeira página, largas colunas, novelas, esquetes.
Façam o que quer que forem fazer, mas bem feito o façam.
Com cores, amores, verdadeiros traços. Não continuando preenchendo os mesmos espaços ocupados por preconceitos, ironias e deboches clichês. Originalizem-se. Criem. Plantem sua semente.
Vivam para o bem e o bem morará realmente em seus leitos,
natural e consequentemente.Hoje estou desempregado, amanhã de repente...
Solidão
Solidão não é falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... (Isto é carência). Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem voltar... (Isto é saudade). Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe as vezes para realinhar os pensamentos... (Isto é equilibrio). Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos nossa vida... (Isto é um princípio da natureza). Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... (Isto é circunstância). Solidão é muito mais do que isso. Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.
Chico Buarque de Holanda
Inventando Moda
O que achamos insensato,
Aparece, no contexto, retratado.
Certas pessoas optam pelo errado.
Certos errados não caminham com o certo.
Está tudo confuso, tudo encasquetado.
Tudo desunido, tudo embaralhado.
Cada um só fazendo por si, um cada para cada lado.
Frente de batalha, golpe de estado.
Salve-se quem puder.
Fecho comigo e não abro.
Os valores inverteram-se.
Tá tudo dominado.
Filhos espancam mães.

Pais estupram filhas.
Irmãos matam irmãos.
Amigos estão na mira.
É compadre, tá foda!
A paz está perdida.
A verdade, de cadeira-de-rodas.
A harmonia, desaparecida.
O ensino, deficiente.
A hombridade, pedindo esmolas.
Onde já se viu?
É o contemporâneo homem fazendo história.
Fazendo não, desfazendo, destruindo.
Uma coisa é certa, ficará na memória.
Traumatismo, câncer, escória:
O certo foi esquecido.
O errado está na moda.
Ascendência

Dos confins egípcios,
Nas pirâmides e sarcófagos,
De almas e âmagos puros,
Nasceram os amores...
A moça encantada,
Os ventres propícios,
Corações descalços de peitos verdes e maduros,
Sentiram, em seu seio, as dores.
Há priscas eras se difundem esses tais amores,
Que como Arco-Íris,
Ao pôr do sol ou ao secar da chuva,
Vão perdendo, aos poucos, suas vivas cores.
O infinito faz-se instante.
A efêmera lágrima, soluço.
O abraço apertado, distante.
O sóbrio e alvo sorriso, intruso.
Além de jóias, pergaminhos e de algumas vestes banhadas a ouro,
Foram também enterradas com o Faraó, em seu leito sepulcral,
Saudades em seu coração.
Seus carinhos e paixões secretas,
O que acreditava ser seu maior tesouro,
Não puderam ser roubados e foram consigo, alados,
Para a Eternidade Infinda.
E até hoje sobrevivem intactos em suas catacumbas,
Apesar do tempo, de escavações e de procuras,
Além de seu ouro raro, empoeirados pergaminhos e vestes imundas,
As sagradas escrituras citando as esposas que teve, que o amaram,
E que ao seu lado viveram e morreram.
O que não se tem notícia são dos seus verdadeiros amores,
Aqueles que bem guardados, e às vezes até amargados em seu ser,
Por serem tais sentimentos esses considerados proibidas emoções,
Existiram e misteriosamente desapareceram sem deixar vestígios.
Sumiram. Escafederam-se.
E hoje vagam por aí...
Perambulam.
Perpetuam-se...
Assombrando corações.
Submarino
Submergir do raso para o fundo.
Para longe do ficar ao acaso,
De braços bem dados,
Mergulhados com o profundo.
Banhar-me com águas-de-cheiro colhidas em jardins próximos aos corais mais coloridos.
Reconhecer que distante de mim,
Eu era desconhecido, seco, sozinho.
Catar conchinhas, pérolas e estrelas, no céu marino.
Pegar carona com golfinhos, pescar sereias, cavalgar cavalos marinhos.
Permissão a Netuno para ali enamorar.
Para bons fluídos, a benção de Iemanjá.
Ao emergir, afobado, sentir saudades das guelras que davam-me ares,
E, com isso, emarasmar.
Entediar-me. Em minha ilha me isolar.
Agora, mesmo que contra correntezas e marés,
A favor de minhas ondas, irei remar.
E, para reproduzir, rio acima irei nadar.
Gerar vivas nascentes, quentes cores refratar.
Dar um tempo da mesmice.
No subconsciente, de cabeça, mergulhar.
Fazer dos mares meu quintal, dos oceanos o meu lar.
De uma vez por todas e enfim emarar.
Mudar da superfície.
Me aprofundar no mar.
Meu desejo mora lá.
Quero namorar.
Quero lá morar.
Sumir um pouco da terra.
Ir no mar morar.
Ponta-Cabeça
Quem disse que não existe rasteira capaz de derrubar
Um bamba de capoeira, estava meramente enganado.
Tesoura, arrastão, facada, meia-lua, golpe de estado.
O céu escurece, falta o chão, pisão, ésse-dobrado.
Procuro e não acho.
Rodopio. Agaixo. Caio.
O corpo desaba. Desmorona. Racha.
Coração dilacerado estirado num banco de praça.
Roda de mês já nem tem mais graça.
Minha corda puiu.
Meu acrômio luxou-se.
Meu escafóide, num chute, partiu.
Volta e meia e numa volta ao mundo, coice.
Pelas costas, pisão rodado, dentada, foice.
Meu berimbau até empenou.
Sua rija cabaça, gritando, trincou.
O arame, já marejado, estalou.
O Som, antes no tom, atravessou.
Hoje choro minha saudade pela sombra.
Olho pro escuro céu e peço ao meu Orixá uma luz.
Me ajoelho ao pé do berimbau.
Nem sei bem o porquê Sinal da cruz.
Me guia, ensina, conduz.
Meu Mestre me olha nos olhos e diz que isso acontece, que é natural.
E que, de milha em milha, é necessário, e arbitrário,
esticar o couro do atabaque,
para renovar as abatidas batidas e dar fôlego aos sufocados ares de meu oco peito.
Tô saindo da roda.
Minha mandinga, há muito, retirou-se antes de mim.
Meu jogo está preso, minha garganta seca, meu cantar triste assim.
Adormeço ao som distante dum velho e curtido pandeiro.
Estou cansado. Dolorido. Magoado.
Tua falta provocou-me um alarido.
Teus olhos nus se perderam de vista.
Perderam-se nus.
Sinto ainda o teu cheiro escorrendo em meu peito, porém, não o quero mais.
Não quero mais isso.
Sou egoísta.
Peço, por gentileza, que não insista.
Que não tente novamente me bandar.
Desista.
Eu já caí, não está vendo?
Fiquei de pista.
Berimbolei, durei, fiquei zonzo, desequilibrista.
Perdi a minha afinada pedra e, com gládios,
quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.
Ponteira mirada e esticada, bem dada, na boca do estômago.
Meu peão nem quer mais rodar.
Meu martelo descruzou.
Minha armada desarmou.
Tô todo torto, todo errado.
Perdido.
Parado.
Tonto, no ponto, esperando o bonde passar.
Tô indo pra onde quiserem me levar.
Vida, leva eu, leva.
Mas leva pra bem longe mesmo.
Para que eu, sem esperança de um dia conseguir,
tente esquecer esse Amor que um dia tive e que um dia tive que deixar.
Ressucita-me.
Faça-me feliz novamente.
Deixa eu viver minha vida à nova mente.
Toma de mim meus pensamentos e sonhos.
Liberta-me.
Oh, Vida!!
Iêêê...
Marcas
Sempre que ouvir aquela canção,
Dançarei contigo em meu pensamento.
Ao lembrar de ti,
Sorrirei com você em minha solidão.
A distância se aproximou de nós e, sorrateira, nos beijou.
A saudade veio e nos deu as mãos.
O destino deu e tomou você de mim.
O que fazer se somos assim, indiferentes.
De hoje em diante,
Você estará sempre comigo:
Onde quer que eu vá,
Com quem eu estiver,
Em qualquer situação,
Mas...
Apenas no pensamento,
Apenas no coração.
Beleza Negra
Beleza Negra,
Realeza,
Caramelo.
Pé no chão,
Peão,
Reino,
Castelo.
Combinação única de cores,
Gemidos, sussurros,
Verdes arrepios,
Maduros amores.
De seus meigos olhos de elefante,
venta uma brisa cheia de doçura e suavidade.
Camuflados em seus “Dread-Locks” paira a força de Sansão;
Na robusta armadura, a volúpia dum furacão;
No peito de aço, “um grito de liberdade..."
E invadindo a sua propriedade, se achando Majestade,
Adormece ao som de berimbaus e atabaques,
Linda,
Nua,
Sem disfarces,
Te deixando assim, estupefato, a beira de ataques,
tendo, já, quase, piripaques ou,
Sei lá, quem sabe até princípios d'enfarte,
E só de pensar na possibilidade do distanciamento,
Já sentindo o cheiro traiçoeiro da saudade,
Sempre ela, sempre a saudade,
sempre pedindo bis, sempre querendo mais...
Ahhhh!! E agora?? O que faço??
Para não perder mais tempo, acordo ou não acordo, agora mesmo, sua beleza, ahnn??
Cores de uma flor
Negra. 
Láurea.
Força da cor.
De teus olhos venta verde,
Furacão.
Tuas negras meninas,
Submersas em verdes águas,
As minhas sopram,
Vendaval, tormenta, tentação.
Malícia no olhar, refletido ao meu, sob lindos, grossos e espetados arcos.
Rosados lábios chamaram a minha atenção.
Suavidade e doçura se misturam em seus beijos, causando frisson.
Me confunde, ludibria, faz-me perder a noção.
Perco-me.
Acho-me.
Onde me perco, acho...
Acho-me, agora, perdido em coloridos pensamentos teus.
Contigo danço, rio, cantarolo, tento.
Grito, crio, berimbólo, invento.
Tire logo as minhas forças ou dá-me, por gentileza, novas, sustento.
Se essa preta pretendia me enfeitiçar, ela já conseguiu.
Não precisa apelar, branca, partiu.
Apenas sejas simples, trivial e branda.
Assim irás me ter.
Quero tê-la.
Quero-me tê-la.
Quero ser,
Ser-la,
Sê,
Sê-la.
Sei lá,
Que de todo jeito,
Seja como for.
Quero teus olhos,
Boca,
Língua,
Láureos lábios,
Teu natural cheiro de flor.
Descoberta
Quando olho no espelho, é você quem vejo.Ao tomar banho, é pra você que eu canto.
Só em pensar, vejo o teu cheiro.
Ao sorvê-lo, sinto todo o encanto.
Nesse exato momento, quero te dar um beijo.
E, em mim, você deve estar pensando.
Não tem essa de quem chegar primeiro.
A telepatia antecipa os planos.
Agora, mesmo que não queira,
No teu sangue estou rodando.
Percorrendo tuas veias,
Vendo por debaixo do pano.
Uma coisa é certa,
Pode escrever o que estou falando,
Eu, Renato, estou de boca aberta, viajando,
Mas meu cérebro, em alerta,
Pois, mesmo acordado, com você fica sonhando.
Fiz uma descoberta:
Creio que estou amando!
Mude
Mude, mas comece devagar,
Porque a direção,
É mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
No outro lado da mesa.
Mais tarde mude de mesa.
Quando sair,
Procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
Ande por outras ruas,
Calmamente,
Observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos. Procure andar descalço por uns dias.Tire uma tarde inteira para Passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma do outro lado da cama...
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv, compre outros jornais, leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade.
Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas coras, novas Delícias.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito,o novo prazer, o novo amor, a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental...
Tome banho em outros horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro,compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros,visite novos museus.
Mude.Lembre-se que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arranjar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente, mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo a energia.
Só o que está morto não muda.
Repita por pura alegria de viver:
A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!!!
Edson Marques
Flor
Mobilidade,
Cores,
Pétala.
Fragilidade,
Amores,
Sépala.
Assim é o meu amor, ápice.
Isento de dor ou espinhos ao cálice.
Semente pura que desabrochou.
Chuvas,
Carinhos,
Raios do Sol.
À vida,
A Natureza Mãe,
O convidou.
Estame,
Antera,
Grãos de pólen amarelos.
Cio,
Primavera,
Beijos de beija-flores singelos.
Encanto,
Magia,
Aromas da terra, elo. 
Da Mãe Terra ele brotou,
Do Barro.
É delicado,
Tem nós deveras comprimidos,
Gerando estabilidade.
Suspenso ao verde, nasce.
Mas, como o sol,
Também tem o seu pôr,
Parte.
Meu amor é assim,
Seleção natural, ao acaso.
Se for,
A minha flor se enfeitiçou.
Assim
Olha, meu amor,
Vou te dizer uma coisa.
Não sei se você vai gostar, mas...
Eu sou assim.
É, sou assim.
Sempre digo na cara o que sinto.
Eu sou assim.
Foi desse jeito que nasci.
Sempre fui assim,
Era assim,
Sempre serei assim.
Assim, eu sou assim.
Assim sempre serei.
Assim, serei sempre assim.
Logo, vou chamar-lhe novamente, meu amor.
Olha, meu amor,
Vou lhe chamar sempre de meu amor.
Não sei se você vai gostar,
Nem sei se você vai gostar.
Eu digo na cara o que sinto.
Não sei guardar o meu amor, amor.
Eu sou assim.
Olha,
Veja como estou, meu amor.
Estou bem?
Estou tão sozinho.
É que sou assim. 
Levo você comigo,
Na garupa da saudade,
Me acompanhando.
Sempre firme.
Deixe o vento bater em seu rosto,
Deixe esse lindo cabelo balançar.
Vou dizer agora o que sinto.
Vou dizer na cara.
Porque sou assim, meu amor.
Porque sou assim.
Um tal de érre minúsculo
O érre estava lá,
Minúsculo,
Perdido entre as reticências..r.
Até que uma adorável letrista resolveu percebê–lo.
Olhou–o perdido e passou a escrevê–lo da maneira que bem quisesse e entendesse.
Após horas de aula de ortografia, entre pontos e vírgulas, perdidos encontros se esbarravam numa enorme interrogação vazia à espera de sua vez de questionar.
Perplexas, as ranzinzas tremas ficaram passadas ao verem que os dois pontos ameaçavam dar espaço para que o travessão dialogasse sem parar, como um "tagarela e matraqueiro papagaio" e, sem terem mais o que fazer, cochichavam nas entrelinhas:
– “Lá se vão aqueles negritos, lá.
Os dois ridículos pontinhos, um em cima do outro, dando trela praquele cachaceiro e magrelo travessão filho da pauta, que, falando besteiras pelos pêlos e cotovelos, segue bem a frente dos dois, os três cambaleando página abaixo...”
Ah, tremas sem conceito, sem respeito.
Querem saber??
Vocês já eram.
Ficaram para trás.
Vocês só servem mesmo para falarem mal e causarem chiado com os seus dois falsos pontinhos no ú dos outros.
Chega de furados papos e moles conversas.
Vamos tirar os pingos dos is, de uma vez por todas.
Parágrafos pedem que se mude de assunto, mas o que realmente importa no contexto é procurar descobrir que raio de oração substantivada é essa que apareceu do nada em minha vida, se intrometendo em minha inspiração, tomando conta de minha rima e dirigindo o meu texto em sua direção, além de cismar em me rabiscar e me borrar com o seu melado nanquim.O que fazer se sou assim, feito de pedra, de barro mole, de quinhão, de mim.
Sou assim.
Sôo e ressôo.
Agitadas, as exclamações imploram e clamam que eu vá depressa, além dos caracteres entre parênteses, fazer o que for melhor para minhas saúdes mental, espiritual e emocional.
O tio de meu coração aconselhou–me a encontrá–la e, após recitar um versinho apaixonado, agarrá–la e muito beijá–la.
Meu sublinhado coração, agudo com tantos hífens de safena, volta a bater sereno, acomodando–se entre minhas aspas e cantarolando o nome dela para mim.
Sempre o dela.
Que estranho.
Quem será essa palavra que tanto é pronunciada em meus pensamentos e citada em meu coração??
Aliás, quem ela acha que é??
O que será que está havendo com o coração dela??
É mole!! 
Que substantivo feminino mais inconveniente,
intrometido e cheio de papas na ponta da língua.
Quem ele acha que é para, sem guarida, invadir assim o meu seio e cravar uma flexa bem no meio de meu silabado –co–ra–cão–>, por onde, de uma brecha, esguichando sem parar, vaza a cada pulsar o seu nome soletrado, escorrendo e percorrendo num vermelho e preto rubro-negro gritante, por minhas artérias, dando–me vida?
Quem ela acha que é para transformar–se, assim, no ar que respiro??
Quem é essa garota que aplicou pilantramente o golpe do baú em meu músculo pulsante??
Lá
Sonhei que estava em alto mar, que estava lá.
Quero ir para alto mar.
Quero ir para lá.
Quero navegar os oceanos e mares que tem por lá.
Quero ir para alto mar, lá os sabores e cores são diferentes.
As fragrâncias, âmbares, para sempre.
Em alto mar latejam vontades contidas.
Lá, descobre-se palavras novas escondidas.
Cria-se novas notas sustenidas.
Preciso, urgentemente, ir para alto mar, lá emarar-me e lá ficar.
Irei para alto mar.
Ponto.
Lamento por quem não entrar no barco e por aqui ficar.
Um abraço.
Eu quero tanto te abraçar, te abarcar.
Eu preciso.
Preciso prover-me.
Meu desejo mora lá.
Mora lá em alto mar, lá onde tudo flui, tudo se dilui, tudo influi.
Lá.
Lá no alto mar, lá pra onde irei.
Quero o mar, lá terei o mar, lá terei o que quero.
Quero, além do mar, amar, lá.
Fui.
Adeus.
Vou velejar.
Sair de terra firme.
Ir navegar-amar, lá.
Certezas
Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu lhe amar, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
Poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...
E não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros...
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia,
Poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe,
que vale a pena se doar às amizades a às pessoas,
que a vida é bela sim,
e que eu sempre dei o melhor de mim...
E que valeu a pena!!!
Mário Quintana
Cercados
Rimas. 
Versos.
Melodias de amor.
Cinderela.
Arcos-íris.
Cor.
Ventos, assobiando baixo, tilintam mensageiros.
Tons violetas, ametistas e violáceos, aos horizontes.
Cabelo de nuvens, cachos, fontes, montes.
Gosto tanto do teu abraço.
Do teu cheiro, teu cansaço.
Quero-te sempre comigo.
Em ti me perco, me acho.
Enrosco, completo, tomo forma, modelo, encaixo.
Por ti, dou todo o meu reinado.
Dôo meus fortes e valentes couraçados.
Liberto meus cavalos e de meus escudos me desfaço.
Abandono o meu trono, jogo fora o meu cajado.
Quero-te para mim.
Quero que sejas minha.
Não quero que tenha fim.
Para isso, faço qualquer tratado.
Desejo um bom fim.
Quero contigo estar ilhado.
N’algum lugar
Alvo sorriso, ![]()
Pés descalços,
Nuas meninas.
Criança brincando,
Cabelos raspados,
Orelha dobrada,
Calor, suor, luz, ventanias.
Brincava de índio, de teatro.
Vivia sorrindo, vibrando, de quatro.
Cavalgava comigo em harmonia perfeita.
Mesmo dormindo esbanjava beleza.
Mas se deu que certo dia,
Foi brilhar para outro céu.
Estrelar noutro palco, voar.
Deixando galáxia a minha vazia.
Hoje vivo em órbita, sonhando.
Escutando o doce latido do doce, por perto.
Olhos celestes estampam o meu cérebro.
Percorro, desde então, descoloridos horizontes.
Vivo, inconstante, procurando visões.
Saudades,
Rastros,
Imagens ao longe.
Pôr do amor
Ainda mais por tratar-se de assunto tão delicado.
Não há nada mais o que esconder.
As cores secaram.
Foram-se cada uma para cada lado.
O amor, às vezes, é assim, surpreendente.
Gruda e te beija, desgruda e te deixa.
A gente nem sequer sente.
Quando damo-nos por si, ele já se foi, foice de repente.
Desespero e dor são tão inevitáveis, quanto efêmeros.
Roubam os postos da harmonia e do prazer.
Estes vão para longe, para outra cidade, pra outro céu, pr’outros olhos,
Aportarem noutro cais o seu querer.
Sonhos reais,
por trilhas diferentes das que estava acostumado a percorrer,
Fazem-me perceber melhor ao meu redor.
Vejo matizes de tons sustenidos e violáceos em dó.
É temporada de hibernação.
Golfinhos, agitados,
Velejam para o litoral,

acasalam-se.
Lagartas, após o cio,
Encasulam-se ao breu.
Solidão, angústia.
Racionamento de energia do meu eu.
O meu amor se pôs,
Se foi.
O meu ser escureceu.
Temporão
Desta forma, tão súbita e tão ausente de água, do plantio fez-se o justo.
Desilusão.
Susto.
Gafanhotos, praga, vulto.
Só a silhueta duma diferente forma, pós-moderna, de se semear, vi.
Minhas raízes sendo arrancadas, vivi.
Tormento.
Atração.

Fome.
Momento.
Falta adubo.
Ciclo do nitrogênio.
É pouca merda pro meu gosto.
Já basta.
Estorvo.
Tempestade.
Terremoto.
Ventos.
Trovoadas em meu pensamento.
Raios e relâmpagos em formação na atmosfera de meu coração.
Flores secas nascendo, com força, do chão.
Seca está a lagoa...
Seco, o meu sertão.
Borboletas sobrevoam...
Tô de lagoa seca cheia.
Injustiça germinada.
Descolorida e desmatada primavera.
Sol e chuva é do que preciso.
Arco-íris:
Quem me dera.
Meta Morfoses
Não me dêem fórmulas certas,
Por que eu não espero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim,
Por que vou seguir meu coração. 
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual,
Por que sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma,
Mas, com certeza, não serei a mesma pra sempre.
Desconhecido
O Amor
Aristóteles
O Amor ²
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.
1 Coríntios . 13
Trova
O compasso de meu coração está começando a bater diferente,
Marcando o meu passo,
Compassando-me,
Dando-me outra vida.
Com peito e cordas de aço, renasci para o mundo novamente.
De repente, de estalo, sonora linda trilha.
Mais uma vez, vou entregá-lo a quem achar conveniente.
Apta esta pessoa terá que ser.
Simples e exclusiva, assim irá me ter.
Só não sei se em seu ritmo, minha melodia irá soar.
E se, minhas notas, ainda perdidas, irão, às dela, harmonizar.
Estou desafinado, atravessado, bemol.
Ainda toco esta repetida e batida canção em vinil.
Preciso me reencontrar, 
Sustenir.
Trovas em dó,
Cantigas de ninar...
Estou preparado.
Ainda sem tom,
Renasci afinado.
Levando o maior som,
Renapto.
Você
Ei, você: a minha vida é sua, não vê?
Só você detém o meu querer.
Sem saber bem ou mesmo o por quê,
Você me leva, em vai e vem, na garupa, com você.
Faz de mim o seu bem-me-quer, o seu bem-querer.
Seu nau, seu mau, seu bom, seu mal, seu bem, seu ser.
Rei, carrasco, prisioneiro, refém.
Fulano, cicrano, beltrano, outrem.
Falo por mim: quero a ti e a mais ninguém.
Até, mesmo, porque não tenho a mais ninguém a quem querer mesmo.
Estamos a sós: eu, você e meus coloridos pensamentos teus.
Só Deus, nalgum lugar, nos observa.
Na verdade, então, estamos Deus, você, eu e meus pensamentos teus,
por todo lado, por toda parte, por onde quer que andemos.
Estive pensando: há dias que você não me sai da cabeça.
Agora, por exemplo, antes que eu me esqueça,
Acabam de surgir acalorados pensamentos meus, teus.
Sorrio sozinho, arrepio.
De olhos fechados, consegui lhe ver, o brilho...
O brilho de teus olhos, lábios e sorrisos.
De teus tons de pele,
Cheiros e abraços,
Sou escravo.
Eu lhe pertenço,
Não tem jeito,
Você não vê?
Faça você, de mim,
O que bem quiser,
O que bem entender.
Ama-me.
Procria-me se quiser.
Dá-me vida, vidas.
Salva-me se puder.
Deus
Passei tanto tempo te procurando, não sabia onde estavas.
Olhava o infinito, não te via e pensava comigo mesmo:
Será que Tu existes?
Não me encontrava na busca e prosseguia.
Tentava te encontrar nas religiões e nos templos.
E Tu não estavas.
Te busquei através de sacerdotes e pastores e não Te encontrei.
Senti-me só e desesperado.
Te descri.
Na descrença Te ofendi. 
Na ofensa, tropecei e caí.
Na queda, senti-me fraco.
Na fraqueza, pedi socorro.
No socorro, encontrei amigos.
Nos amigos encontrei carinho.
No carinho, vi nascer o amor.
Com o amor vi um mundo novo.
No mundo novo, resolvi doar.
Doando, recebi.
Recebendo, me senti feliz.
Feliz, encontrei a paz.
E com paz, foi que te enxerguei, pois dentro de mim Tu estavas.
E sem Te procurar foi que Te encontrei.
Desconhecido
Vivendo e aprendendo
Que crescer não significa fazer aniversário.
Que o silêncio é a melhor resposta, quando se ouve uma bobagem.
Que trabalhar significa não só ganhar dinheiro.
Que amigos a gente conquista mostrando o que somos.
Que os verdadeiros amigos sempre ficam com você até o fim.
Que a maldade também se esconde atrás de uma bela face.
Que não se espera a felicidade chegar, mas se procura por ela...
Que quando penso saber de tudo ainda não aprendi nada.
Que a natureza é a coisa mais bela na vida.
Que amar significa se dar por inteiro.
Que um só dia pode ser mais importante que muitos anos.
Que se pode conversar com estrelas.
Que se pode confessar com a lua.
Que se pode viajar além do infinito.
Que ouvir uma palavra de carinho faz bem à saúde.
Que dar um carinho também faz...
Que sonhar é preciso.
Que se deve ser criança a vida toda.
Que nosso ser é livre.
Que Deus não proíbe nada em nome do amor.
Que o julgamento alheio não é importante.
Que o que realmente importa é a paz interior.
E, finalmente, aprendi que não se pode morrer, para se aprender a viver.
Desconhecido