...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Apaixonar-se

Doçura nos sabores.
Mistura de essências nos odores.
Sol, sombra, opacidade, cores.

Dos olhos do furacão brotam flores encimeiras.
Dos fartos pedúnculos, amores, fogueiras.
Tímidas, suas meninas fitam.
Nervosas, as minhas se agitam.
Meus poros por ela chamam, gritam.
Minhas palavras à boca ulceram, precipitam, as dela imitam.

Não sou mais dono de mim.
Não tenho mais vontades próprias.
Fui tomado de assalto.

Engraçado que deixo que seja assim.
Ao vento conto histórias.
Jogo versos para o alto.

Minha alma arrepiou.
Minha rima metrificou.
Meus pelos se eriçaram.

Meu coração se flechou.
Meu tempo parou.
Meus sentimentos se aclarearam.

Voltei a sentir saudades.
Escuto a voz do meu amor.
Encontrei minha outra metade.
O meu Eu se apaixonou.

Mais!!

A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos. A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro. A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos. Tudo bem! O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos e acreditar mais ou menos... Senão, a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.

Chico Xavier

Sonho

Sonhei alto, levitei.
Flertei com a Deusa do Amor.
Na cama de nuvens, de Vênus, me deitei.
Com seu aroma,
Fragrância emanada dos poros, flutuei.
Com o sabor,
Combinação única de desejos, insaciável me lambuzei.
Com sua pele junto a minha, ingenuamente, arrepiei.
Jamais havia visto tantas belezas juntas numa mesma mulher,
Em toda a face da terra.
Será Sonho?
Verdade??
Ou Meia-Noite-Cinderela???



Vislumbre de um universitário desempregado

Um tempo em que se seja realmente feliz.
Crianças brincando, amigos do peito, verdades, reciprocidades.
Um tempo em que homens respeitassem e procurassem ajudar uns aos outros, para, assim, terem por quem ser ajudados e respeitados.
Em que sentimentos gerados e ligados à má formação social imposta por falhas estruturais governamentais, se escafedessem. Onde professores, formadores e orientadores tivessem o devido e assistido cuidado com os seus alunos, seus homens, procurando conhecer a cor dos olhos de cada um – formar não é castrar, dar bronca, expulsar de sala, excluir. Formar é, sim, interagir, comunicar-se, conversar, expressar-se, ouvir e ser ouvido, ser, mudar-se, transformar-se. Formar é, antes de tudo, ensinar e aprender. É, sobretudo, ensinar a aprender.
Diálogos há de existir a essa época, é a que almejo.
Época em que chefes tratassem com dignidade os seus empregados, obtendo, assim, mais ritmo, confiança e empenho por parte deles.
Na qual existirá uma capaz mídia, que tratará a informação com mais cuidado, sem ficar abusando da falta de coerência com a realidade, em sensacionalistas e fétidas matérias cruas que estampam, hoje, capas e páginas dos principais veículos de comunicação impressa e virtual, pronunciando-se repetidamente, por semanais décadas, pelas carrancudas bocas dubladas de engravatados teleapresentadores, caixas pretas mundo vasto à fora. Vasto mundo alienado.
Há de chegar o momento em que a mínima assistência será prestada e discutir-se-á políticas públicas com seriedade, verdade e envolvimento pelos meios de comunicação, refletindo, a partir daí, repercussões em toda a sociedade à qual essa comunicação procurar incutir inteligência. A comunicação, numa sociedade, é fundamental, sua falha, abismal.
Tempos que voltarão a ser áureos se aproximam.
Hoje, ainda vê-se como poesia, delírio, ficção ou fantasia, todavia, sinto aproximar.
Sou, então, um poeta delirante, um fictício ser fantástico, um mero personagem querendo isso praticar.
Que não quer morrer sem ao menos tentar algo mudar.
Se a transformação e a inteligência são do ser humano, como se sabe, logo, o que falta é usarmos essa inteligência de forma correta a transformar a realidade, a colori-la.
Fazer isso virar manchete.
Primeira página, largas colunas, novelas, esquetes.
Façam o que quer que forem fazer, mas bem feito o façam.
Com cores, amores, verdadeiros traços. Não continuando preenchendo os mesmos espaços ocupados por preconceitos, ironias e deboches clichês. Originalizem-se. Criem. Plantem sua semente.
Vivam para o bem e o bem morará realmente em seus leitos,
natural e consequentemente.Hoje estou desempregado, amanhã de repente...

Solidão

Solidão não é falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... (Isto é carência). Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem voltar... (Isto é saudade). Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe as vezes para realinhar os pensamentos... (Isto é equilibrio). Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos nossa vida... (Isto é um princípio da natureza). Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... (Isto é circunstância). Solidão é muito mais do que isso. Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.

Chico Buarque de Holanda

Inventando Moda

Às vezes,
O que achamos insensato,
Aparece, no contexto, retratado.
Certas pessoas optam pelo errado.
Certos errados não caminham com o certo.
Está tudo confuso, tudo encasquetado.
Tudo desunido, tudo embaralhado.
Cada um só fazendo por si, um cada para cada lado.
Frente de batalha, golpe de estado.
Salve-se quem puder.
Fecho comigo e não abro.
Os valores inverteram-se.
Tá tudo dominado.
Filhos espancam mães.
Pais estupram filhas.
Irmãos matam irmãos.
Amigos estão na mira.
É compadre, tá foda!
A paz está perdida.
A verdade, de cadeira-de-rodas.
A harmonia, desaparecida.
O ensino, deficiente.
A hombridade, pedindo esmolas.
Onde já se viu?
É o contemporâneo homem fazendo história.
Fazendo não, desfazendo, destruindo.
Uma coisa é certa, ficará na memória.
Traumatismo, câncer, escória:
O certo foi esquecido.
O errado está na moda.

Ascendência

Da Santa Terra semeada,
Dos confins egípcios,
Nas pirâmides e sarcófagos,
De almas e âmagos puros,
Nasceram os amores...
A moça encantada,
Os ventres propícios,
Corações descalços de peitos verdes e maduros,
Sentiram, em seu seio, as dores.
Há priscas eras se difundem esses tais amores,
Que como Arco-Íris,
Ao pôr do sol ou ao secar da chuva,
Vão perdendo, aos poucos, suas vivas cores.
O infinito faz-se instante.
A efêmera lágrima, soluço.
O abraço apertado, distante.
O sóbrio e alvo sorriso, intruso.
Além de jóias, pergaminhos e de algumas vestes banhadas a ouro,
Foram também enterradas com o Faraó, em seu leito sepulcral,
Saudades em seu coração.
Seus carinhos e paixões secretas,
O que acreditava ser seu maior tesouro,
Não puderam ser roubados e foram consigo, alados,
Para a Eternidade Infinda.
E até hoje sobrevivem intactos em suas catacumbas,
Apesar do tempo, de escavações e de procuras,
Além de seu ouro raro, empoeirados pergaminhos e vestes imundas,
As sagradas escrituras citando as esposas que teve, que o amaram,
E que ao seu lado viveram e morreram.
O que não se tem notícia são dos seus verdadeiros amores,
Aqueles que bem guardados, e às vezes até amargados em seu ser,
Por serem tais sentimentos esses considerados proibidas emoções,
Existiram e misteriosamente desapareceram sem deixar vestígios.
Sumiram. Escafederam-se.
E hoje vagam por aí...
Perambulam.
Perpetuam-se...
Assombrando corações.

Ponta-Cabeça

Quem disse que não existe rasteira capaz de derrubar
Um bamba de capoeira, estava meramente enganado.
Tesoura, arrastão, facada, meia-lua, golpe de estado.
O céu escurece, falta o chão, pisão, ésse-dobrado.
Procuro e não acho.
Rodopio. Agaixo. Caio.
O corpo desaba. Desmorona. Racha.
Coração dilacerado estirado num banco de praça.
Roda de mês já nem tem mais graça.
Minha corda puiu.
Meu acrômio luxou-se.
Meu escafóide, num chute, partiu.
Volta e meia e numa volta ao mundo, coice.
Pelas costas, pisão rodado, dentada, foice.
Meu berimbau até empenou.
Sua rija cabaça, gritando, trincou.
O arame, já marejado, estalou.
O Som, antes no tom, atravessou.
Hoje choro minha saudade pela sombra.
Olho pro escuro céu e peço ao meu Orixá uma luz.
Me ajoelho ao pé do berimbau.
Nem sei bem o porquê Sinal da cruz.
Me guia, ensina, conduz.
Meu Mestre me olha nos olhos e diz que isso acontece, que é natural.
E que, de milha em milha, é necessário, e arbitrário,
esticar o couro do atabaque,
para renovar as abatidas batidas e dar fôlego aos sufocados ares de meu oco peito.
Tô saindo da roda.
Minha mandinga, há muito, retirou-se antes de mim.
Meu jogo está preso, minha garganta seca, meu cantar triste assim.
Adormeço ao som distante dum velho e curtido pandeiro.
Estou cansado. Dolorido. Magoado.
Tua falta provocou-me um alarido.
Teus olhos nus se perderam de vista.
Perderam-se nus.
Sinto ainda o teu cheiro escorrendo em meu peito, porém, não o quero mais.
Não quero mais isso.
Sou egoísta.
Peço, por gentileza, que não insista.
Que não tente novamente me bandar.
Desista.
Eu já caí, não está vendo?
Fiquei de pista.
Berimbolei, durei, fiquei zonzo, desequilibrista.
Perdi a minha afinada pedra e, com gládios,
quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.
Ponteira mirada e esticada, bem dada, na boca do estômago.
Meu peão nem quer mais rodar.
Meu martelo descruzou.
Minha armada desarmou.
Tô todo torto, todo errado.
Perdido.
Parado.
Tonto, no ponto, esperando o bonde passar.
Tô indo pra onde quiserem me levar.
Vida, leva eu, leva.
Mas leva pra bem longe mesmo.
Para que eu, sem esperança de um dia conseguir,
tente esquecer esse Amor que um dia tive e que um dia tive que deixar.
Ressucita-me.
Faça-me feliz novamente.
Deixa eu viver minha vida à nova mente.
Toma de mim meus pensamentos e sonhos.
Liberta-me.
Oh, Vida!!
Iêêê...

Marcas

Sempre que ouvir aquela canção,
Dançarei contigo em meu pensamento.
Ao lembrar de ti,
Sorrirei com você em minha solidão.
A distância se aproximou de nós e, sorrateira, nos beijou.
A saudade veio e nos deu as mãos.
O destino deu e tomou você de mim.
O que fazer se somos assim, indiferentes.
De hoje em diante,
Você estará sempre comigo:
Onde quer que eu vá,
Com quem eu estiver,
Em qualquer situação,
Mas...
Apenas no pensamento,
Apenas no coração.

Beleza Negra

Beleza Negra,
Realeza,
Caramelo.
Pé no chão,
Peão,
Reino,
Castelo.
Combinação única de cores,
Gemidos, sussurros,
Verdes arrepios,
Maduros amores.
De seus meigos olhos de elefante,
venta uma brisa cheia de doçura e suavidade.
Camuflados em seus “Dread-Locks” paira a força de Sansão;
Na robusta armadura, a volúpia dum furacão;
No peito de aço, “um grito de liberdade..."
E invadindo a sua propriedade, se achando Majestade,
Adormece ao som de berimbaus e atabaques,
Linda,
Nua,
Sem disfarces,
Te deixando assim, estupefato, a beira de ataques,
tendo, já, quase, piripaques ou,
Sei lá, quem sabe até princípios d'enfarte,
E só de pensar na possibilidade do distanciamento,
Já sentindo o cheiro traiçoeiro da saudade,
Sempre ela, sempre a saudade,
sempre pedindo bis, sempre querendo mais...
Ahhhh!! E agora?? O que faço??
Para não perder mais tempo, acordo ou não acordo, agora mesmo, sua beleza, ahnn??

Cores de uma flor

Negra.
Láurea.
Força da cor.
De teus olhos venta verde,

Furacão.
Tuas negras meninas,
Submersas em verdes águas,

As minhas sopram,
Vendaval, tormenta, tentação.
Malícia no olhar, refletido ao meu, sob lindos, grossos e espetados arcos.
Rosados lábios chamaram a minha atenção.
Suavidade e doçura se misturam em seus beijos, causando frisson.
Me confunde, ludibria, faz-me perder a noção.
Perco-me.
Acho-me.
Onde me perco, acho...
Acho-me, agora, perdido em coloridos pensamentos teus.
Contigo danço, rio, cantarolo, tento.
Grito, crio, berimbólo, invento.
Tire logo as minhas forças ou dá-me, por gentileza, novas, sustento.
Se essa preta pretendia me enfeitiçar, ela já conseguiu.
Não precisa apelar, branca, partiu.
Apenas sejas simples, trivial e branda.
Assim irás me ter.
Quero tê-la.
Quero-me tê-la.
Quero ser,
Ser-la,
Sê,
Sê-la.
Sei lá,

Que de todo jeito,
Seja como for.
Quero teus olhos,
Boca,
Língua,
Láureos lábios,
Teu natural cheiro de flor.


Mude

Mude, mas comece devagar,
Porque a direção,

É mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
No outro lado da mesa.
Mais tarde mude de mesa.
Quando sair,
Procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
Ande por outras ruas,
Calmamente,
Observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos. Procure andar descalço por uns dias.Tire uma tarde inteira para Passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma do outro lado da cama...
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv, compre outros jornais, leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade.
Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas coras, novas Delícias.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito,o novo prazer, o novo amor, a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental...
Tome banho em outros horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro,compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros,visite novos museus.
Mude.Lembre-se que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arranjar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente, mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo a energia.
Só o que está morto não muda.
Repita por pura alegria de viver:
A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!!!

Edson Marques





Flor

Mobilidade, Cores,
Pétala.
Fragilidade,
Amores,
Sépala.
Assim é o meu amor, ápice.
Isento de dor ou espinhos ao cálice.
Semente pura que desabrochou.
Chuvas,
Carinhos,
Raios do Sol.
À vida,
A Natureza Mãe,
O convidou.
Estame,
Antera,
Grãos de pólen amarelos.
Cio,
Primavera,
Beijos de beija-flores singelos.
Encanto,
Magia,
Aromas da terra, elo.
Da Mãe Terra ele brotou,
Do Barro.
É delicado,
Tem nós deveras comprimidos,
Gerando estabilidade.
Suspenso ao verde, nasce.
Mas, como o sol,
Também tem o seu pôr,
Parte.
Meu amor é assim,
Seleção natural, ao acaso.
Se for,
A minha flor se enfeitiçou.

Assim

Olha, meu amor,
Vou te dizer uma coisa.
Não sei se você vai gostar, mas...
Eu sou assim.
É, sou assim.
Sempre digo na cara o que sinto.
Eu sou assim.
Foi desse jeito que nasci.
Sempre fui assim,
Era assim,
Sempre serei assim.
Assim, eu sou assim.
Assim sempre serei.
Assim, serei sempre assim.
Logo, vou chamar-lhe novamente, meu amor.
Olha, meu amor,
Vou lhe chamar sempre de meu amor.
Não sei se você vai gostar,
Nem sei se você vai gostar.
Eu digo na cara o que sinto.
Não sei guardar o meu amor, amor.
Eu sou assim.
Olha,
Veja como estou, meu amor.
Estou bem?
Estou tão sozinho.
É que sou assim.
Levo você comigo,
Na garupa da saudade,

Me acompanhando.
Sempre firme.
Deixe o vento bater em seu rosto,
Deixe esse lindo cabelo balançar.
Vou dizer agora o que sinto.
Vou dizer na cara.
Porque sou assim, meu amor.
Porque sou assim.

Um tal de érre minúsculo

O érre estava lá,
Minúsculo,
Perdido entre as reticências..r.
Até que uma adorável letrista resolveu percebê–lo.
Olhou–o perdido e passou a escrevê–lo da maneira que bem quisesse e entendesse.
Após horas de aula de ortografia, entre pontos e vírgulas, perdidos encontros se esbarravam numa enorme interrogação vazia à espera de sua vez de questionar.
Perplexas, as ranzinzas tremas ficaram passadas ao verem que os dois pontos ameaçavam dar espaço para que o travessão dialogasse sem parar, como um "tagarela e matraqueiro papagaio" e, sem terem mais o que fazer, cochichavam nas entrelinhas:
– “Lá se vão aqueles negritos, lá.
Os dois ridículos pontinhos, um em cima do outro, dando trela praquele cachaceiro e magrelo travessão filho da pauta, que, falando besteiras pelos pêlos e cotovelos, segue bem a frente dos dois, os três cambaleando página abaixo...”
Ah, tremas sem conceito, sem respeito.
Querem saber??
Vocês já eram.
Ficaram para trás.
Vocês só servem mesmo para falarem mal e causarem chiado com os seus dois falsos pontinhos no ú dos outros.
Chega de furados papos e moles conversas.
Vamos tirar os pingos dos is, de uma vez por todas.
Parágrafos pedem que se mude de assunto, mas o que realmente importa no contexto é procurar descobrir que raio de oração substantivada é essa que apareceu do nada em minha vida, se intrometendo em minha inspiração, tomando conta de minha rima e dirigindo o meu texto em sua direção, além de cismar em me rabiscar e me borrar com o seu melado nanquim.O que fazer se sou assim, feito de pedra, de barro mole, de quinhão, de mim.
Sou assim.
Sôo e ressôo.
Agitadas, as exclamações imploram e clamam que eu vá depressa, além dos caracteres entre parênteses, fazer o que for melhor para minhas saúdes mental, espiritual e emocional.
O tio de meu coração aconselhou–me a encontrá–la e, após recitar um versinho apaixonado, agarrá–la e muito beijá–la.
Meu sublinhado coração, agudo com tantos hífens de safena, volta a bater sereno, acomodando–se entre minhas aspas e cantarolando o nome dela para mim.
Sempre o dela.
Que estranho.
Quem será essa palavra que tanto é pronunciada em meus pensamentos e citada em meu coração??
Aliás, quem ela acha que é??
O que será que está havendo com o coração dela??
É mole!!
Que substantivo feminino mais inconveniente,
intrometido e cheio de papas na ponta da língua.
Quem ele acha que é para, sem guarida, invadir assim o meu seio e cravar uma flexa bem no meio de meu silabado –co–ra–cão–>, por onde, de uma brecha, esguichando sem parar, vaza a cada pulsar o seu nome soletrado, escorrendo e percorrendo num vermelho e preto rubro-negro gritante, por minhas artérias, dando–me vida?
Quem ela acha que é para transformar–se, assim, no ar que respiro??
Quem é essa garota que aplicou pilantramente o golpe do baú em meu músculo pulsante??





Sonhei que estava em alto mar, que estava lá.
Quero ir para alto mar.
Quero ir para lá.
Quero navegar os oceanos e mares que tem por lá.
Quero ir para alto mar, lá os sabores e cores são diferentes.
As fragrâncias, âmbares, para sempre.
Em alto mar latejam vontades contidas.
Lá, descobre-se palavras novas escondidas.
Cria-se novas notas sustenidas.
Preciso, urgentemente, ir para alto mar, lá emarar-me e lá ficar.
Irei para alto mar.
Ponto.
Lamento por quem não entrar no barco e por aqui ficar.
Um abraço.
Eu quero tanto te abraçar, te abarcar.
Eu preciso.
Preciso prover-me.
Meu desejo mora lá.
Mora lá em alto mar, lá onde tudo flui, tudo se dilui, tudo influi.
Lá.
Lá no alto mar, lá pra onde irei.
Quero o mar, lá terei o mar, lá terei o que quero.
Quero, além do mar, amar, lá.
Fui.
Adeus.
Vou velejar.
Sair de terra firme.
Ir navegar-amar, lá.

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu lhe amar, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
Poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...
E não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros...
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia,
Poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe,

que vale a pena se doar às amizades a às pessoas,
que a vida é bela sim,
e que eu sempre dei o melhor de mim...
E que valeu a pena!!!

Mário Quintana


Cercados

Rimas.
Versos.
Melodias de amor.
Cinderela.
Arcos-íris.
Cor.
Ventos, assobiando baixo, tilintam mensageiros.
Tons violetas, ametistas e violáceos, aos horizontes.
Cabelo de nuvens, cachos, fontes, montes.
Gosto tanto do teu abraço.
Do teu cheiro, teu cansaço.
Quero-te sempre comigo.
Em ti me perco, me acho.
Enrosco, completo, tomo forma, modelo, encaixo.
Por ti, dou todo o meu reinado.
Dôo meus fortes e valentes couraçados.
Liberto meus cavalos e de meus escudos me desfaço.
Abandono o meu trono, jogo fora o meu cajado.
Quero-te para mim.
Quero que sejas minha.
Não quero que tenha fim.
Para isso, faço qualquer tratado.
Desejo um bom fim.
Quero contigo estar ilhado.

N’algum lugar

Alvo sorriso,
Pés descalços,
Nuas meninas.
Criança brincando,
Cabelos raspados,
Orelha dobrada,
Calor, suor, luz, ventanias.
Brincava de índio, de teatro.
Vivia sorrindo, vibrando, de quatro.
Cavalgava comigo em harmonia perfeita.
Mesmo dormindo esbanjava beleza.
Mas se deu que certo dia,
Foi brilhar para outro céu.
Estrelar noutro palco, voar.
Deixando galáxia a minha vazia.
Hoje vivo em órbita, sonhando.
Escutando o doce latido do doce, por perto.
Olhos celestes estampam o meu cérebro.
Percorro, desde então, descoloridos horizontes.
Vivo, inconstante, procurando visões.
Saudades,
Rastros,

Imagens ao longe.


Pôr do amor

No pensamento voa a incerteza do fazer e do agir,
Ainda mais por tratar-se de assunto tão delicado.
Não há nada mais o que esconder.
As cores secaram.
Foram-se cada uma para cada lado.
O amor, às vezes, é assim, surpreendente.
Gruda e te beija, desgruda e te deixa.
A gente nem sequer sente.
Quando damo-nos por si, ele já se foi, foice de repente.
Desespero e dor são tão inevitáveis, quanto efêmeros.
Roubam os postos da harmonia e do prazer.
Estes vão para longe, para outra cidade, pra outro céu, pr’outros olhos,
Aportarem noutro cais o seu querer.
Sonhos reais,
por trilhas diferentes das que estava acostumado a percorrer,
Fazem-me perceber melhor ao meu redor.
Vejo matizes de tons sustenidos e violáceos em dó.
É temporada de hibernação.
Golfinhos, agitados,
Velejam para o litoral,
acasalam-se.
Lagartas, após o cio,
Encasulam-se ao breu.
Solidão, angústia.
Racionamento de energia do meu eu.
O meu amor se pôs,

Se foi.
O meu ser escureceu.